sexta-feira, 6 de julho de 2012

Amor Animal



O amor nunca foi condicionado apenas à pessoas, ele se sente sem restrições. Pensando assim pode-se explicar aquele carinho maior e tão intenso sentido por animais. O relato a seguir conta a história do meu primeiro animal de estimação, com quem criei fortes laços de amor e fraternidade.
Brenda chegou à minha casa quando eu era ainda criança, meus pais precisavam de uma distração para meu irmão e eu, duas crianças hiperativas. Não acreditamos quando vimos chegar uma cadelinha ainda filhote, na porta de casa. O sonho de ter um cãozinho estava sendo realizado.
Ela era simplesmente linda, resultado do cruzamento de um cão poodle com um maltês, com lindos pêlos negros e longos, a cachorrinha encantava a todos que por ela passasse na rua.
Como ela ainda não tinha nome foi feita uma reunião para decidir como iríamos chamá-la. Como na minha casa sempre fizemos tudo com muita democracia, decidimos fazer uma votação. Cada um dos membros da família votou por um nome diferente e tudo deu errado. Tivemos então que partir para um sorteio e assim foi escolhido o nome com a cara da nossa menininha: Brenda Maria Pereira.
Devidamente registrada e vacinada, Brenda se tornou um membro da família, todos os planos que fazíamos, fossem eles viagens ou curtos passeios, tínhamos em vista como levá-la para que ela não se sentisse sozinha ou uma estranha na casa dos vizinhos.
Brenda foi crescendo como uma criança travessa, destruía tudo, mordia os calcanhares de todos lá em casa, fazia a festa naquele espaço que se tornou dona, era visivelmente feliz e amada por todos, até por Willy, o gato que chegou bem após a ela e obrigatoriamente se tornou um companheiro. Ela o mordia as patas e ele adorava, pareciam dois irmãos, a diferença não era importante para os dois.
Um dia muito marcante foi a primeira vez que a Brenda visitou a praia. Era noite e a Praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro estava escura e com mar agitado. Cães são como crianças, não têm noção do perigo, foi assim que ela, toda empolgada, correu para dentro da água gelada. Quase morri de susto, nunca imaginei que cães sabiam nadar! Chorei, corri atrás dela e minha mãe me segurou. Passaram-se poucos minutos e ela veio latindo, toda miúda, pois os pêlos colaram-se ao corpo. Estava feliz, sentia-se liberta na imensidão de areia que a rodeava.
Entre as muitas lembranças que tenho da Brendinha, como carinhosamente era chamada, foi o dia de nossa primeira despedida. As coisas não estavam bem entre meus pais e tivemos que nos separar. Indo morar com meus avós, no interior do Ceará, fui obrigada a deixar minha pequena amiguinha no Rio. Chorava todos os dias e perguntava pra minha mãe se ela iria nos esquecer.
A distância não diminuiu nosso amor por Brenda. Minha mãe, meu irmão e eu, estávamos em uma nova terra, repleta de coisas novas, mas no pensamento, sempre amada, estava nossa primeira cadelinha. Chegamos a falar com ela ao telefone. Para muitos, aquilo era loucura, mas para nós era uma maneira de trazê-la pra perto.
Chegou então um grande dia para o meu relacionamento com Brenda, depois de quase quatro anos separadas, meu pai, durante uma viagem ao Ceará, decidiu trazê-la junto para uma visita. A alegria que senti ao vê-la foi incomensurável, ela continuava linda e parecia ainda me reconhecer.
Ela adorou o lugar, diferente da nossa antiga casa no Rio, onde o espaço era bastante reduzido, ali ela encontrou o lugar certo para se soltar, se sentiu em casa também. A única coisa ruim é que ela continuava sapeca como sempre e não sossegou até matar umas três galinhas das vizinhas. A pobrezinha era inocente, só queria brincar com as galinhas e adorava o barulho que elas faziam, mas as pobres aves não suportavam as mordidas e morriam.
Nesse momento Brenda foi ameaçada de morte pelos criadores de galinhas indignados e tivemos que prendê-la no quintal, longe de qualquer bicho que ela pudesse ameaçar. Os dias de liberdade haviam terminado. Lembro como ela chorava durante a noite, não estava acostumada a ficar sozinha no escuro, seus olhinhos negros ficavam mareados de lágrimas, mas infelizmente no Ceará os costumes são outros, cães não ficam dentro de casa.
Acabou-se o mês de férias do meu pai e ele teria que retornar para sua casa. Aquele momento era triste pra mim, ter que me distanciar do meu pai sempre foi muito doloroso, ainda mais agora que junto à ele também iria minha pequena Brendinha. Fiquei perto dela o máximo possível, no meu colo ela parecia feliz, e eu com certeza estava.
Nas demais férias do meu pai ela não o acompanhou. Nunca mais vi minha cachorrinha, a não ser por fotos que meu pai mandava por cartas. O amor que ele sentia por ela parecia ter reduzido pela metade, não se importava em deixá-la com estranhos. Foi então que ela adoeceu. Seus lindos pelos negros começaram a cair, sua alegria radiante minguou. De longe, minha família e eu, estávamos de mãos atadas, mas não deixamos de fazer nossas preces para que ela não morresse. Passados alguns meses de tratamento Brenda se recuperou, mas nunca mais voltou a ser como era antes.
Oito anos após nossa saída do Rio recebi um telefonema que me tirou o chão. Era meu pai me avisando que minha pequena sapeca havia partido, já estava com mais de dez anos de idade, cansada, não agüentou esperar mais alguns anos para me ver. Não tive como conter as lágrimas, a sensação foi a mesma que perder um ente próximo e muito querido da família. Meus amigos não entenderam minhas lágrimas, eles não compartilharam dos nossos bons momentos, não a viram surgir intacta, saindo do grande mar, não a viram crescer, não a  ouviram latir e pular de alegria ao me ver.
Brenda nunca teve filhotinhos, não caberiam na casa do Rio de Janeiro. Nunca pôde mudar-se para perto de nós, pois mataria as galinhas de toda a vizinhança. Após sua morte tivemos outros cães, alguns demos o nome de Brenda, inicialmente, mas mudamos depois, ela é mesmo insubstituível. A cadelinha mais amada, não morreu no meu coração, ao fechar meus olhos ainda posso ver sua imagem.

Um comentário:

  1. O primeiro cão de estimação a gente nunca esquece. Faz 12 anos que o meu morreu, mas até hoje sinto saudades dele.

    Bjs,
    Danilo

    Tem novo post no meu blog. Quando puder, visite:
    http://blogpontotres.blogspot.com.br

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