O amor nunca
foi condicionado apenas à pessoas, ele se sente sem restrições. Pensando assim
pode-se explicar aquele carinho maior e tão intenso sentido por animais. O
relato a seguir conta a história do meu primeiro animal de estimação, com quem
criei fortes laços de amor e fraternidade.
Brenda
chegou à minha casa quando eu era ainda criança, meus pais precisavam de uma
distração para meu irmão e eu, duas crianças hiperativas. Não acreditamos
quando vimos chegar uma cadelinha ainda filhote, na porta de casa. O sonho de
ter um cãozinho estava sendo realizado.
Ela era
simplesmente linda, resultado do cruzamento de um cão poodle com um maltês, com
lindos pêlos negros e longos, a cachorrinha encantava a todos que por ela
passasse na rua.
Como ela
ainda não tinha nome foi feita uma reunião para decidir como iríamos chamá-la.
Como na minha casa sempre fizemos tudo com muita democracia, decidimos fazer
uma votação. Cada um dos membros da família votou por um nome diferente e tudo
deu errado. Tivemos então que partir para um sorteio e assim foi escolhido o
nome com a cara da nossa menininha: Brenda Maria Pereira.
Devidamente
registrada e vacinada, Brenda se tornou um membro da família, todos os planos
que fazíamos, fossem eles viagens ou curtos passeios, tínhamos em vista como
levá-la para que ela não se sentisse sozinha ou uma estranha na casa dos
vizinhos.
Brenda foi
crescendo como uma criança travessa, destruía tudo, mordia os calcanhares de
todos lá em casa, fazia a festa naquele espaço que se tornou dona, era
visivelmente feliz e amada por todos, até por Willy, o gato que chegou bem após
a ela e obrigatoriamente se tornou um companheiro. Ela o mordia as patas e ele
adorava, pareciam dois irmãos, a diferença não era importante para os dois.
Um dia muito
marcante foi a primeira vez que a Brenda visitou a praia. Era noite e a Praia
da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro estava escura e com mar agitado. Cães são
como crianças, não têm noção do perigo, foi assim que ela, toda empolgada, correu
para dentro da água gelada. Quase morri de susto, nunca imaginei que cães
sabiam nadar! Chorei, corri atrás dela e minha mãe me segurou. Passaram-se
poucos minutos e ela veio latindo, toda miúda, pois os pêlos colaram-se ao
corpo. Estava feliz, sentia-se liberta na imensidão de areia que a rodeava.
Entre as
muitas lembranças que tenho da Brendinha, como carinhosamente era chamada, foi
o dia de nossa primeira despedida. As coisas não estavam bem entre meus pais e
tivemos que nos separar. Indo morar com meus avós, no interior do Ceará, fui
obrigada a deixar minha pequena amiguinha no Rio. Chorava todos os dias e
perguntava pra minha mãe se ela iria nos esquecer.
A distância
não diminuiu nosso amor por Brenda. Minha mãe, meu irmão e eu, estávamos em uma
nova terra, repleta de coisas novas, mas no pensamento, sempre amada, estava
nossa primeira cadelinha. Chegamos a falar com ela ao telefone. Para muitos,
aquilo era loucura, mas para nós era uma maneira de trazê-la pra perto.
Chegou então
um grande dia para o meu relacionamento com Brenda, depois de quase quatro anos
separadas, meu pai, durante uma viagem ao Ceará, decidiu trazê-la junto para
uma visita. A alegria que senti ao vê-la foi incomensurável, ela continuava
linda e parecia ainda me reconhecer.
Ela adorou o
lugar, diferente da nossa antiga casa no Rio, onde o espaço era bastante
reduzido, ali ela encontrou o lugar certo para se soltar, se sentiu em casa
também. A única coisa ruim é que ela continuava sapeca como sempre e não
sossegou até matar umas três galinhas das vizinhas. A pobrezinha era inocente,
só queria brincar com as galinhas e adorava o barulho que elas faziam, mas as
pobres aves não suportavam as mordidas e morriam.
Nesse
momento Brenda foi ameaçada de morte pelos criadores de galinhas indignados e
tivemos que prendê-la no quintal, longe de qualquer bicho que ela pudesse
ameaçar. Os dias de liberdade haviam terminado. Lembro como ela chorava durante
a noite, não estava acostumada a ficar sozinha no escuro, seus olhinhos negros
ficavam mareados de lágrimas, mas infelizmente no Ceará os costumes são outros,
cães não ficam dentro de casa.
Acabou-se o
mês de férias do meu pai e ele teria que retornar para sua casa. Aquele momento
era triste pra mim, ter que me distanciar do meu pai sempre foi muito doloroso,
ainda mais agora que junto à ele também iria minha pequena Brendinha. Fiquei
perto dela o máximo possível, no meu colo ela parecia feliz, e eu com certeza
estava.
Nas demais
férias do meu pai ela não o acompanhou. Nunca mais vi minha cachorrinha, a não
ser por fotos que meu pai mandava por cartas. O amor que ele sentia por ela
parecia ter reduzido pela metade, não se importava em deixá-la com estranhos.
Foi então que ela adoeceu. Seus lindos pelos negros começaram a cair, sua
alegria radiante minguou. De longe, minha família e eu, estávamos de mãos
atadas, mas não deixamos de fazer nossas preces para que ela não morresse. Passados
alguns meses de tratamento Brenda se recuperou, mas nunca mais voltou a ser
como era antes.
Oito anos
após nossa saída do Rio recebi um telefonema que me tirou o chão. Era meu pai
me avisando que minha pequena sapeca havia partido, já estava com mais de dez
anos de idade, cansada, não agüentou esperar mais alguns anos para me ver. Não
tive como conter as lágrimas, a sensação foi a mesma que perder um ente próximo
e muito querido da família. Meus amigos não entenderam minhas lágrimas, eles
não compartilharam dos nossos bons momentos, não a viram surgir intacta, saindo
do grande mar, não a viram crescer, não a ouviram latir e pular de alegria ao me ver.
Brenda nunca
teve filhotinhos, não caberiam na casa do Rio de Janeiro. Nunca pôde mudar-se
para perto de nós, pois mataria as galinhas de toda a vizinhança. Após sua
morte tivemos outros cães, alguns demos o nome de Brenda, inicialmente, mas
mudamos depois, ela é mesmo insubstituível. A cadelinha mais amada, não morreu
no meu coração, ao fechar meus olhos ainda posso ver sua imagem.
O primeiro cão de estimação a gente nunca esquece. Faz 12 anos que o meu morreu, mas até hoje sinto saudades dele.
ResponderExcluirBjs,
Danilo
Tem novo post no meu blog. Quando puder, visite:
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